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Finalizado
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Resumo
Sumário
- 1) Definição e classificação
- 2) Epidemiologia
- 3) Fisiopatologia (mecanismos principais)
- 3.1 Retenção renal de sódio (mecanismo central)
- 3.2 SRAA hiperativo
- 3.3 Tônus simpático aumentado
- 3.4 Disfunção endotelial
- 3.5 Remodelamento vascular
- 4) Etiologia — Hipertensão secundária (5–10%)
- 4.1 Doença renal
- 4.2 Estenose de artéria renal
- 4.3 Hiperaldosteronismo primário (Síndrome de Conn)
- 4.4 Feocromocitoma
- 4.5 Síndrome de Cushing
- 4.6 Apneia obstrutiva do sono
- 5) Diagnóstico
- 5.1 Confirmação diagnóstica
- 5.2 Lesão de órgão‑alvo (LOA): achados e por quê
- 5.3 Exames laboratoriais: alterações e explicação
- 6) Tratamento farmacológico
- 7) Metas pressóricas
- 8) Correlações clínicas
1) Definição e classificação
Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) é uma condição clínica multifatorial com elevação sustentada da pressão arterial.
Relação hemodinâmica central (em LaTeX):
- PA: pressão arterial
- DC: débito cardíaco
- RVP: resistência vascular periférica
Classificação (medida em consultório)
Categoria | PAS (mmHg) | PAD (mmHg) |
--- | ---: | ---: |
Normal | < 120 | < 80 |
Elevada | 120–129 | < 80 |
HAS estágio 1 | 130–139 ou | 80–89 |
HAS estágio 2 | ≥ 140 ou | ≥ 90 |
Por que ≥ 140/90 define HAS? (A partir desse patamar, o risco cardiovascular aumenta de forma acentuada, com maior incidência de AVC e coronariopatia; além disso, há reset do barorreflexo, reduzindo a capacidade de “retornar” a PA para níveis basais.)
2) Epidemiologia
- Essencial (primária): 90–95% (resulta de interação genética × ambiente, poligênica, sem causa única claramente identificável)
- Secundária: 5–10% (há causa potencialmente identificável e, em alguns casos, reversível)
Por que a maioria é essencial? (A regulação da PA envolve rim, SRAA, sistema nervoso simpático e endotélio. Pequenas variações em múltiplos genes e fatores ambientais somam efeitos, gerando HAS sem uma lesão única responsável.)
3) Fisiopatologia (mecanismos principais)
Ideia‑chave: HAS sustentada costuma ser a soma de retenção de sódio/volume, vasoconstrição e remodelamento vascular, que elevam DC e, principalmente, RVP.
3.1 Retenção renal de sódio (mecanismo central)
- ↓ excreção fracionada de Na⁺ nos túbulos distais → ↑ volemia → ↑ pré‑carga → ↑ DC
(O rim “aceita” um set‑point maior de PA para excretar sódio. Com mais Na⁺ e água retidos, o volume intravascular aumenta, elevando o retorno venoso e o DC.)
3.2 SRAA hiperativo
- ↑ Angiotensina II → vasoconstrição (via receptor AT1) + ↑ aldosterona
- Resultado: ↑ RVP + retenção de Na⁺/H₂O + hipertrofia de músculo liso vascular (VSMC)
(Ang II é vasoconstritora direta e também promove remodelamento. A aldosterona aumenta reabsorção de Na⁺ no néfron distal, expandindo volume.)
Equação/fluxo do SRAA (em LaTeX):
3.3 Tônus simpático aumentado
- ↑ norepinefrina + barorreflexo “resetado”
- ↓ sensibilidade dos barorreceptores carotídeos/aórticos → menor inibição do simpático
(Com o set‑point mais alto, o sistema “tolera” PA elevada sem acionar freios autonômicos com a mesma intensidade, mantendo vasoconstrição e maior cronotropismo/inotropismo.)
3.4 Disfunção endotelial
- ↓ NO e ↑ endotelina‑1 (ET‑1) → ↓ vasodilatação + ↑ vasoconstrição → ↑ RVP
(O endotélio perde capacidade de liberar vasodilatadores e passa a favorecer mediadores vasoconstritores e pró‑remodelamento.)
3.5 Remodelamento vascular
- Hipertrofia da parede e redução do lúmen → ↑ RVP estrutural (parcialmente independente do tônus)
(Com menor raio efetivo, pequenas contrações aumentam muito a resistência, e a resistência basal já fica mais alta.)
4) Etiologia — Hipertensão secundária (5–10%)
Suspeitar em: início jovem, instalação súbita, HAS resistente, hipocalemia sem diurético, sinais sistêmicos.
4.1 Doença renal
- Proteinúria (perda de proteínas por lesão glomerular, indicando aumento de permeabilidade e dano de barreira)
- IRA progressiva (queda de função renal, podendo refletir lesão vascular/glomerular em progressão)
Fisiopatologia: ↓ TFG → ↓ natriurese → ↑ volemia (com o rim filtrando menos, a excreção de Na⁺/água cai, expandindo volume e elevando PA.)
4.2 Estenose de artéria renal
- Sopro abdominal (fluxo turbulento por estreitamento arterial)
- HAS jovem/resistente (mecanismo renina‑dependente pode ser muito potente)
Fisiopatologia: ↓ perfusão renal → ↑ renina → hiperaldosteronismo secundário (o rim “interpreta” como hipotensão e ativa SRAA, elevando RVP e retendo volume.)
4.3 Hiperaldosteronismo primário (Síndrome de Conn)
- Hipocalemia espontânea (perda renal de K⁺ por ação mineralocorticoide)
- Alcalose metabólica (aumento de secreção de H⁺ nas células intercaladas, favorecida por mineralocorticoides)
Fisiopatologia: aldosterona autônoma → ↑ reabsorção de Na⁺ e ↑ secreção de K⁺ no túbulo coletor cortical.
Por que ocorre hipocalemia no hiperaldosteronismo? (A aldosterona aumenta ENaC e a Na⁺/K⁺‑ATPase: entra mais Na⁺ na célula e sai mais Na⁺ para o interstício, deixando o lúmen mais negativo e favorecendo secreção de K⁺, resultando em K⁺ < 3,5 mEq/L.)
4.4 Feocromocitoma
- Episódios paroxísticos: palpitações (taquicardia por estímulo β‑adrenérgico), sudorese (ativação simpática colinérgica)
Fisiopatologia: excesso de catecolaminas → ↑ tônus simpático (vasoconstrição α1, aumento de FC/contratilidade, elevando PA.)
4.5 Síndrome de Cushing
- Obesidade truncal (redistribuição de gordura por efeito do cortisol)
- Estrias (catabolismo proteico e fragilidade dérmica)
- Hipocalemia (efeito mineralocorticoide quando cortisol satura 11β‑HSD2)
Fisiopatologia: cortisol em excesso pode agir como “mineralocorticoide‑like” → retenção de Na⁺/água (expande volume e eleva PA.)
4.6 Apneia obstrutiva do sono
- HAS noturna (MAPA) (perda do dipping pela ativação simpática noturna)
- Roncos (vibração por obstrução de via aérea superior)
Fisiopatologia: hipóxia intermitente → ↑ catecolaminas + inflamação + ↑ resistência insulínica, elevando tônus vascular e favorecendo retenção/ativação neuro‑hormonal.
5) Diagnóstico
5.1 Confirmação diagnóstica
- 2–3 consultas sucessivas com técnica adequada (braço apoiado ao nível do coração)
- OU MAPA: média de 24h ≥ 130/80 mmHg
(A variabilidade pressórica e o “efeito do avental branco” exigem repetição e/ou MAPA para reduzir falso‑positivo e estimar carga pressórica real.)
5.2 Lesão de órgão‑alvo (LOA): achados e por quê
Retina
- Grau 3: hemorragias + exsudatos (microaneurismas e isquemia levam a aumento de permeabilidade e extravasamento)
Coração
- HVE no ECG (Sokolow > 35 mm) (aumento de massa ventricular aumenta amplitude elétrica; é um marcador indireto de hipertrofia)
Por que HVE concêntrica na HAS?
(Com ↑ pós‑carga por ↑ RVP, o VE precisa gerar maior pressão. Pela lei de Laplace, a tensão parietal aumenta com a pressão e o raio e diminui com a espessura.)
(O aumento de h por hipertrofia concêntrica reduz T, normalizando a tensão.)
Rins
- Albuminúria > 30 mg/g (lesão de barreira glomerular e disfunção endotelial/podocitária; também pode refletir hiperfiltração e pressão intraglomerular elevada)
Vasos
- Pressão de pulso (PVA) > 10 mmHg (aumento de rigidez arterial e aterosclerose acelerada elevam pressão sistólica e ampliam a diferença sistólica–diastólica)
5.3 Exames laboratoriais: alterações e explicação
- K⁺ baixo (< 3,5) mEq/L (sugere hiperaldosteronismo: aldosterona ↓ K⁺ ao aumentar secreção no túbulo coletor)
- Creatinina elevada (pode refletir nefroangioesclerose e perda progressiva de néfrons; após IECA/BRA, pode subir por redução da pressão intraglomerular)
- Microalbuminúria (marcador precoce de lesão endotelial e dano inicial de filtração; antecipa pior prognóstico CV)
6) Tratamento farmacológico
6.1 Classes, mecanismo e “por que” dos efeitos adversos
Diuréticos tiazídicos
- Mecanismo: ↑ natriurese no túbulo distal
- Efeito principal: ↓ volemia (reduz pré‑carga e DC inicialmente)
- Efeito adverso: hipocalemia (maior fluxo distal e maior entrega de Na⁺ ao coletor → aumenta troca Na⁺/K⁺, elevando excreção de K⁺)
IECA
- Mecanismo: ↓ Ang II + ↑ bradicinina
- Efeito principal: ↓ RVP
- Efeito adverso: tosse seca (↑ bradicinina e ↑ substância P irritam vias aéreas)
BRA (ARBs)
- Mecanismo: bloqueio do receptor AT1
- Efeito principal: ↓ RVP
- Efeito adverso: hipercalemia (↓ aldosterona → ↓ excreção de K⁺ no coletor)
Bloqueadores de canal de cálcio (BCC)
- Mecanismo: ↓ Ca²⁺ intracelular no músculo liso vascular
- Efeito principal: ↓ RVP
- Efeito adverso: edema maleolar (dilatação arteriolar pré‑capilar aumenta pressão hidrostática capilar, favorecendo extravasamento para interstício)
6.2 Por que combinações são sinérgicas?
Por que IECA + BRA é contraindicado? (Duplo bloqueio do eixo efetor do SRAA aumenta risco de IRA por queda da pressão intraglomerular via vasodilatação eferente e aumenta risco de hipercalemia por menor aldosterona.)
7) Metas pressóricas
Grupo | Meta |
Geral | < 140/90 mmHg |
Alto risco (DM, DRC) | < 130/80 mmHg |
Idosos (≥ 80 anos) | < 150/90 mmHg |
8) Correlações clínicas
Síntese do raciocínio: identificar HAS, estimar risco, buscar LOA e causas secundárias quando indicado, iniciar terapia baseada em mecanismos, e monitorar segurança.
- PA ≥ 140/90 → suspeitar HAS (limiar com maior risco e provável manutenção por tônus/volume/remodelamento)
- Há LOA? → tratar com mais urgência (LOA indica dano por carga pressórica crônica e pior prognóstico)
- Quando investigar secundária: jovem, início súbito, resistente, hipocalemia (sinais de mecanismos específicos como SRAA/aldosterona/catecolaminas)
- Terapia inicial frequente: IECA/BRA + BCC (atua em SRAA e vasoconstrição do músculo liso, reduzindo RVP)
- Monitorização de segurança:
- Creatinina ↑ (até ~1,5× do basal) (pode ocorrer por redução da pressão intraglomerular, especialmente com bloqueio do SRAA)
- K⁺ > 5,5 mEq/L (redução de aldosterona diminui excreção de K⁺)
- Edema novo (dilatação pré‑capilar com BCC favorece edema periférico)
Padrões clássicos (para memorização)
- Pseudocrise: 170/105, sem LOA → repouso (elevação transitória por dor/ansiedade aumenta simpático)
- Urgência hipertensiva: 210/120, sem LOA → anti‑hipertensivo oral com redução gradual (evitar hipoperfusão por queda abrupta)
- Emergência hipertensiva: 230/130, com LOA (ex.: EAP) → IV (ex.: nitroglicerina) (há lesão aguda por falha de autorregulação e dano endotelial)
- Dissecção de aorta: 220/120, com LOA → beta‑bloqueador IV primeiro (reduz (dP/dt) e estresse na parede antes de vasodilatar)
Fórmula de ouro: Trate a pessoa, não apenas o número da PA.
