- 1) Conceitos essenciais
- 2) Fisiopatologia
- 2.1) Gênese da lesão: Endocardite Trombótica Não Bacteriana (ETNB)
- 2.2) Colonização: bacteremia + adesão + virulência
- 2.3) Morfologia da vegetação: por que é um “santuário”?
- 3) Epidemiologia e agentes
- 3.1) EI em válvula nativa (EVN)
- 3.2) EI em prótese/dispositivo (EVP / CIED)
- 4) Clínica explicada pela fisiopatologia
- 4.1) Síndrome infecciosa sistêmica
- 4.2) Sopros e insuficiência cardíaca (IC)
- 4.3) Fenômenos embólicos (vasculares)
- 4.4) Fenômenos imunológicos
- 4.5) Lesões cutâneas: Osler vs Janeway
- 5) Diagnóstico (Critérios de Duke Modificados)
- 5.1) Quando suspeitar (gatilhos clínicos)
- 5.2) Hemoculturas (pilar do diagnóstico)
- 5.3) Ecocardiografia: ETT vs ETE
- 5.4) Imagem complementar (quando ajuda)
- 5.5) Critérios de Duke Modificados (estrutura)
- 6) Aguda vs Subaguda
- 6.1) EI aguda
- 6.2) EI subaguda
- 7) Tratamento
- 7.1) Princípios centrais
- 7.2) Terapia empírica (antes da cultura)
- 7.3) Sinergismo (por que combinar)
- 7.4) Monitorização de resposta
- 8) Complicações (o que procurar ativamente)
- 8.1) Cardíacas
- 8.2) Neurológicas
- 8.3) Embólicas e sistêmicas
- 9) Cirurgia e “Endocarditis Team” (quando antibiótico não basta)
- 9.1) Ideia-chave
- 9.2) Indicações típicas (alta prioridade)
- 9.3) Time multidisciplinar
- 10) Fluxo de raciocínio (checklist rápido para casos)
- 11) Caso-treino (modelo para praticar Duke)
1) Conceitos essenciais
- Tríade fisiopatológica: lesão endotelial → ETNB (vegetação estéril) → bacteremia + adesão → vegetação infectada/biofilme.
- Pontos que mais mudam conduta: tipo de válvula (nativa vs prótese/dispositivo), lado (esquerdo vs direito), agente provável (S. aureus vs viridans/enterococo), presença de IC, abscesso, AVC/embolia e bacteremia persistente.
2) Fisiopatologia
2.1) Gênese da lesão: Endocardite Trombótica Não Bacteriana (ETNB)
- O gatilho: lesão endotelial valvar.
- Como a lesão acontece (mecanismo hemodinâmico):
- Fluxo turbulento em valvulopatias/alterações anatômicas (congênitas, reumáticas, degenerativas), próteses e “jet lesions” → cisalhamento endotelial.
- Exposição de colágeno/fibronectina subendoteliais → adesão/ativação plaquetária + cascata de coagulação → depósito de plaquetas + fibrina em camadas irregulares.
- Resultado: formação de uma vegetação estéril (ETNB), que vira “nicho” para colonização durante bacteremias transitórias.
Ponto de prova: EI quase sempre precisa de um substrato (ETNB) — exceção prática: S. aureus pode invadir com mais facilidade e causar EI agressiva, inclusive em valvas previamente menos doentes.
2.2) Colonização: bacteremia + adesão + virulência
- Fonte típica de bacteremia transitória: foco odontológico/orofaríngeo, cutâneo, manipulação vascular, infecções GI/GU, UDIV.
- Adesão bacteriana (MSCRAMMs e afins):
- Staphylococcus aureus: clumping factor (ClfA), protein A, fibronectin-binding proteins → ligação a fibrina/fibronectina/plaquetas.
- Estreptococos do grupo viridans: fatores de adesão à matriz (dextran/fibronectina) facilitando fixação na ETNB.
- Virulência e biofilme:
- Produção de matriz extracelular (ex.: PIA e outros polímeros) → biofilme.
- Toxinas (S. aureus) → doença mais aguda, destrutiva.
2.3) Morfologia da vegetação: por que é um “santuário”?
- Composição: fibrina + plaquetas + detritos celulares + colônias bacterianas densas.
- Por que protege bactérias:
- Estrutura avascular → antibiótico chega por difusão.
- Metabolismo lento no interior (baixa oxigenação/nutrientes) → menor ação de antimicrobianos dependentes de crescimento.
- Biofilme dificulta fagocitose e penetração do antibiótico.
- Consequência clínica: necessidade de antibiótico bactericida, em altas doses e por tempo prolongado; e risco de abscesso perivalvar e embolização.
3) Epidemiologia e agentes
3.1) EI em válvula nativa (EVN)
- S. aureus: curso mais agudo, mais complicações; pode ocorrer sem doença valvar prévia importante.
- Viridans: curso mais subagudo, associado a foco odontológico.
- Enterococcus faecalis: associação com foco GI/GU e idosos.
3.2) EI em prótese/dispositivo (EVP / CIED)
- Maior chance de:
- Biofilme, deiscência e regurgitação paravalvar.
- Necessidade de estratégia cirúrgica e/ou remoção de material.
Sempre pensar em EI em paciente com prótese valvar ou dispositivo intracardíaco + febre/sepse sem foco claro, mesmo com ETT inicial “pouco contributivo”.
4) Clínica explicada pela fisiopatologia
4.1) Síndrome infecciosa sistêmica
- Febre, calafrios, sudorese, perda ponderal (mais em formas subagudas), sinais de sepse (aguda).
4.2) Sopros e insuficiência cardíaca (IC)
- Regurgitação aguda é a regra (destruição/perfuração valvar, ruptura de cordas, deiscência protética).
- Estenose por vegetação é rara.
4.3) Fenômenos embólicos (vasculares)
- Mecanismo: fragmentos de vegetação → êmbolos sépticos.
- Onde emboliza:
- EI esquerda → cérebro, baço, rins, membros.
- EI direita → pulmões (embolia séptica pulmonar).
- Preditores importantes:
- Vegetação grande e/ou móvel, especialmente em valva esquerda.
4.4) Fenômenos imunológicos
- Mecanismo: imunocomplexos circulantes depositam-se em microvasculatura → ativação complemento → inflamação.
- Manifestações clássicas:
- Nódulos de Osler (dolorosos, polpas digitais) — vasculite.
- Manchas de Roth (retina) — fenômeno hemorrágico/inflamatório (não é exclusivo de EI).
- Glomerulonefrite (hematúria/proteinúria, hipocomplementemia).
4.5) Lesões cutâneas: Osler vs Janeway
- Osler: doloroso, mais imunológico.
- Janeway: indolor, mais embólico/microabscessos.
5) Diagnóstico (Critérios de Duke Modificados)
5.1) Quando suspeitar (gatilhos clínicos)
- Febre/sepse sem foco + sopro novo/alterado.
- Bacteremia por patógeno típico (especialmente S. aureus) sem explicação.
- Fenômenos embólicos/imunológicos sugestivos.
- Prótese valvar/dispositivo + febre.
5.2) Hemoculturas (pilar do diagnóstico)
- Coletar antes do antibiótico sempre que possível.
- Padrão prático: 3 pares de hemoculturas em punções separadas.
- Bacteremia persistente = forte sinal de “santuário” valvar e/ou abscesso.
5.3) Ecocardiografia: ETT vs ETE
- ETT: exame inicial; melhor em valva nativa e boa janela.
- ETE: maior sensibilidade; mandatória quando:
- prótese valvar/dispositivo,
- ETT negativo com alta suspeita,
- suspeita de complicações (abscesso, fístula, perfuração, deiscência).
5.4) Imagem complementar (quando ajuda)
- AngioTC/TC cardíaca: complicações perivalvares e planejamento cirúrgico.
- PET-CT (especialmente em próteses/dispositivos): pode aumentar sensibilidade em cenários selecionados.
5.5) Critérios de Duke Modificados (estrutura)
Maiores
- Hemoculturas positivas persistentes com microrganismos típicos (ou padrão compatível).
- Evidência de acometimento endocárdico em imagem: vegetação, abscesso, nova deiscência de prótese, fístula, etc.
Menores
- Predisposição (valvulopatia, prótese, UDIV, cardiopatia predisponente)
- Febre ≥ 38°C
- Fenômenos vasculares (embolia, aneurisma micótico, hemorragias, Janeway etc.)
- Fenômenos imunológicos (Osler, Roth, GN)
- Evidência microbiológica que não preenche critério maior / achados compatíveis
Classificação
- Definitiva: 2 maiores ou 1 maior + 3 menores ou 5 menores.
- Possível: combinações intermediárias (ex.: 1 maior + 1 menor, ou 3 menores).
Atalho de raciocínio: EI = microbiologia + imagem. Se uma das duas “pernas” estiver fraca (ex.: cultura negativa por antibiótico prévio), fortaleça a outra (ETE, imagens complementares, reavaliação seriada).
6) Aguda vs Subaguda
6.1) EI aguda
- Instalação rápida (dias–semanas), maior toxemia/sepse.
- Mais destruição valvar e complicações precoces.
- Agente típico: S. aureus (inclui UDIV).
6.2) EI subaguda
- Curso insidioso (semanas–meses).
- Mais fenômenos imunológicos e sinais sistêmicos crônicos.
- Agentes típicos: viridans, enterococo, HACEK.
7) Tratamento
7.1) Princípios centrais
- Bactericida (vegetação/biofilme → bacteriostático tende a falhar).
- Prolongado (geralmente 4–6 semanas; prótese costuma exigir curso maior).
- Preferência por via IV para atingir níveis séricos altos e sustentados.
- Ajustar por: patógeno, CIM/MIC, tipo de válvula, função renal, foco/complicações.
7.2) Terapia empírica (antes da cultura)
- Decidida por:
- apresentação (aguda vs subaguda),
- prótese/dispositivo,
- risco de MRSA,
- lado direito (UDIV) vs esquerdo,
- epidemiologia local.
Nota prática: antibiótico empírico deve vir após hemoculturas, exceto instabilidade/sepse grave (quando o tempo é crítico).
7.3) Sinergismo (por que combinar)
- β-lactâmico ou vancomicina: afeta parede celular → facilita entrada.
- Aminoglicosídeo (quando indicado): ação ribossomal → sinergia bactericida (especialmente em enterococo).
- Rifampicina: penetração em biofilme (principalmente em prótese) — evitar monoterapia por resistência.
7.4) Monitorização de resposta
- Clínica: apirexia, estabilidade hemodinâmica, sinais de IC.
- Laboratório: PCR/VHS seriadas (tendência), função renal (nefrotoxicidade).
- Microbiologia: negativação de hemoculturas.
- Imagem: ETE/ETT seriados quando necessário.
8) Complicações (o que procurar ativamente)
8.1) Cardíacas
- Insuficiência valvar aguda → IC.
- Abscesso perivalvar, fístulas, perfurações.
- Deiscência de prótese e regurgitação paravalvar.
8.2) Neurológicas
- AVC isquêmico, hemorragia, abscesso cerebral, aneurisma micótico.
8.3) Embólicas e sistêmicas
- Infartos esplênicos/renais, embolia periférica; embolia séptica pulmonar (EI direita).
9) Cirurgia e “Endocarditis Team” (quando antibiótico não basta)
9.1) Ideia-chave
Em EI, cirurgia não é “plano B” tardio; é parte do tratamento quando há falência mecânica (válvula) ou infecção não controlada (abscesso/bacteremia persistente) ou risco embólico muito alto.
9.2) Indicações típicas (alta prioridade)
- IC por disfunção valvar aguda (regurgitação grave).
- Infecção incontrolada: bacteremia/febre persistente apesar de esquema adequado; abscesso/fístula; deiscência protética.
- Prevenção de embolia: vegetação grande com eventos embólicos (avaliar caso a caso).
9.3) Time multidisciplinar
- Cardiologia/eco, Infectologia, Cirurgia cardíaca, Neurologia (se AVC), Nefro (se GN/IRA), etc.
10) Fluxo de raciocínio (checklist rápido para casos)
- Suspeitou? → colher hemoculturas (3 pares) antes de ATB, se possível.
- ETT inicial → se prótese/dispositivo ou suspeita alta/complicações → ETE.
- Aplicar Duke e classificar (definitiva/possível).
- Iniciar ATB empírico (se indicado) e ajustar por cultura/MIC.
- Reavaliar diariamente: sinais de IC, embolias, persistência de bacteremia.
- Discutir precocemente com Endocarditis Team se houver critérios de gravidade.
11) Caso-treino (modelo para praticar Duke)
Paciente 65 anos, prótese mitral, febre, hemoculturas positivas persistentes, ETE com vegetação:
- Maior 1: hemoculturas persistentes.
- Maior 2: evidência em imagem (vegetação).
→ Diagnóstico de EI definitiva (2 maiores).
Próximo passo: avaliar complicações, definir antibiótico direcionado, considerar cirurgia se IC/abscesso/deiscência/bacteremia persistente/alto risco embólico.

