- 1. Estrutura da parede celular
- Peptidoglicano
- Espaço periplasmático
- Membrana externa
- 2. Lipopolissacarídeo (LPS) e endotoxina
- Lipídio A
- Core polissacarídico
- Antígeno O
- Importância clínica do LPS
- 3. Comparação com Gram-positivas
- Ideia central
- 4. Mecanismo da coloração de Gram
- Etapas
- Por que as Gram-negativas ficam rosas?
- Por que as Gram-positivas permanecem roxas?
- 5. Fisiologia, resistência e patogênese
- Porinas
- Bombas de efluxo
- β-lactamases
- Choque endotóxico
- 6. Exemplos clínicos importantes (agentes)
- Enterobacteriaceae / Enterobacterales
- Neisseria
- Pseudomonas aeruginosa
- Outros agentes relevantes
- 7. Gram-negativas em ambiente hospitalar
- Principais fatores de risco
- Principais síndromes hospitalares
- Pneumonia associada à ventilação mecânica
- Infecção urinária associada a cateter
- Sepse hospitalar
- Mecanismos de resistência mais importantes
- 8. Doenças associadas (por bactéria)
1. Estrutura da parede celular
As bactérias Gram-negativas apresentam uma parede celular complexa e assimétrica, formada por:
- Membrana citoplasmática interna
- Espaço periplasmático
- Camada fina de peptidoglicano
- Membrana externa
Peptidoglicano
- Camada fina, geralmente com 1 a 2 camadas.
- Corresponde a cerca de 5% a 10% da parede celular.
- Formado por repetições de N-acetilglicosamina (NAG) e N-acetilmurâmico (NAM).
- As cadeias são ligadas por pontes peptídicas curtas.
Espaço periplasmático
Região entre a membrana citoplasmática e a membrana externa.
Funções principais:
- Abrigar enzimas hidrolíticas, como β-lactamases
- Conter proteínas ligadoras de solutos
- Participar de transportes e modificações químicas
- Contribuir para a defesa bacteriana
Membrana externa
É uma bicamada lipídica assimétrica:
- Folheto interno: fosfolipídios
- Folheto externo: rico em lipopolissacarídeo (LPS)
Também possui:
- Porinas
- Lipoproteínas de ancoragem, como a lipoproteína de Braun, que liga a membrana externa ao peptidoglicano
2. Lipopolissacarídeo (LPS) e endotoxina
O LPS é um dos principais fatores de virulência das Gram-negativas e é também chamado de endotoxina.
Ele é composto por três partes:
Lipídio A
- Porção lipofílica e hidrofóbica
- Principal componente endotoxigênico
- Reconhecido pelo sistema imune inato por meio do complexo TLR4/MD-2
- Responsável por febre, inflamação intensa e choque endotóxico
Core polissacarídico
- Região mais conservada
- Contém açúcares como KDO e heptoses
- Ajuda na estabilidade estrutural e na integridade da membrana
Antígeno O
- Porção mais externa e variável
- Importante para sorotipagem
- Ajuda na evasão imune
- Exemplo clássico: E. coli O157
Importância clínica do LPS
- Atua como potente indutor de citocinas inflamatórias
- Pode desencadear:
- febre
- vasodilatação
- aumento da permeabilidade vascular
- coagulação intravascular disseminada (CIVD)
- choque séptico
3. Comparação com Gram-positivas
Característica | Gram-negativas | Gram-positivas |
Peptidoglicano | Fino | Espesso |
Membrana externa | Presente | Ausente |
LPS | Presente | Ausente |
Espaço periplasmático | Presente | Ausente ou mínimo |
Ácidos teicoicos | Ausentes | Presentes |
Retenção do cristal violeta | Baixa | Alta |
Ideia central
- Gram-negativas: maior barreira estrutural e maior contribuição para resistência e endotoxicidade.
- Gram-positivas: parede mais espessa, com maior retenção do corante primário.
4. Mecanismo da coloração de Gram
A coloração de Gram diferencia as bactérias conforme a estrutura da parede celular.
Etapas
- Cristal violeta entra em ambas as células.
- Iodo/Lugol forma o complexo cristal violeta-iodo.
- Álcool-acetona promove a descoloração diferencial.
- Safranina faz a contracoloração das células descoloridas.
Por que as Gram-negativas ficam rosas?
- O álcool-acetona remove lipídios da membrana externa.
- A parede fina de peptidoglicano não retém o complexo cristal violeta-iodo.
- A célula perde a coloração roxa e passa a absorver a safranina.
- Resultado final: rosa ou vermelho.
Por que as Gram-positivas permanecem roxas?
- O álcool desidrata a parede espessa de peptidoglicano.
- O complexo cristal violeta-iodo fica preso na rede densa.
5. Fisiologia, resistência e patogênese
Porinas
As porinas são canais proteicos da membrana externa que permitem a passagem de pequenas moléculas hidrofílicas.
Funções:
- Entrada de nutrientes
- Difusão de moléculas pequenas
- Participação na permeabilidade seletiva
Relevância clínica:
- Alterações nas porinas reduzem a entrada de antibióticos
- Contribuem para resistência intrínseca
- Exemplo: baixa penetração de antibióticos em diversas Gram-negativas
Bombas de efluxo
- Expulsam antibióticos e outras substâncias tóxicas
- Exemplos importantes:
- AcrAB-TolC
- MexAB-OprM
β-lactamases
- Enzimas que inativam antibióticos β-lactâmicos
- Podem estar no espaço periplasmático
- Exemplos:
- ESBL
- AmpC
- KPC
- NDM
Choque endotóxico
Quando ocorre lise bacteriana ou liberação de LPS:
- O Lipídio A ativa macrófagos e monócitos
- Há liberação de TNF-α, IL-1 e IL-6
Consequências:
- febre
- vasodilatação
- aumento da permeabilidade vascular
- hipotensão
- falência orgânica
6. Exemplos clínicos importantes (agentes)
Enterobacteriaceae / Enterobacterales
Exemplos:
- Escherichia coli
- Klebsiella pneumoniae
- Enterobacter cloacae
- Serratia marcescens
- Proteus mirabilis
- Salmonella spp.
- Shigella spp.
Principais quadros:
- Infecção urinária
- Sepse
- Pneumonia
- Infecção intra-abdominal
- Gastroenterites e diarreias infecciosas
Neisseria
- Neisseria meningitidis → meningite e meningococcemia
- Neisseria gonorrhoeae → gonorreia
Pseudomonas aeruginosa
- Pneumonia hospitalar
- Infecção em queimados
- Infecção em fibrose cística
- Sepse
- Resistência antimicrobiana importante
Outros agentes relevantes
- Acinetobacter baumannii
- Stenotrophomonas maltophilia
- Burkholderia cepacia
- Haemophilus influenzae
- Legionella pneumophila
7. Gram-negativas em ambiente hospitalar
As Gram-negativas são especialmente importantes em infecções relacionadas à assistência à saúde.
Principais fatores de risco
- Internação prolongada
- UTI
- Ventilação mecânica
- Cateter venoso central
- Cateter urinário
- Uso prévio de antibióticos
- Imunossupressão
- Queimaduras extensas
- Cirurgias complexas
Principais síndromes hospitalares
Pneumonia associada à ventilação mecânica
Agentes frequentes:
- Pseudomonas aeruginosa
- Acinetobacter baumannii
- Klebsiella pneumoniae
- Enterobacter spp.
- Escherichia coli
Infecção urinária associada a cateter
Agentes frequentes:
- Escherichia coli
- Klebsiella spp.
- Proteus mirabilis
- Pseudomonas aeruginosa
- Enterobacter spp.
Sepse hospitalar
Agentes frequentes:
- Enterobactérias
- Pseudomonas aeruginosa
- Acinetobacter baumannii
Mecanismos de resistência mais importantes
- Redução de permeabilidade por porinas
- Produção de β-lactamases
- Bombas de efluxo
- Formação de biofilme
- Aquisição de plasmídeos de resistência
8. Doenças associadas (por bactéria)
Agente | Doenças / síndromes associadas |
Escherichia coli | ITU (cistite, pielonefrite); sepse; meningite neonatal; gastroenterites (ETEC, EHEC/O157:H7, EPEC, EIEC) |
Klebsiella pneumoniae | Pneumonia (especialmente nosocomial/aspiração); ITU; sepse; abscesso hepático (algumas cepas hipervirulentas) |
Enterobacter cloacae | Infecções hospitalares: pneumonia, ITU, bacteremia (frequentemente associadas a resistência) |
Serratia marcescens | Infecções nosocomiais: ITU, pneumonia, bacteremia (cateter), infecção de ferida |
Proteus mirabilis | ITU; formação de cálculos de estruvita (urease+) e pielonefrite associada |
Salmonella spp. | Gastroenterite; febre entérica (tifoide/paratifoide); bacteremia (especialmente em risco aumentado) |
Shigella spp. | Disenteria (diarreia com sangue/muco), cólicas; possível síndrome hemolítico-urêmica (mais típica em EHEC, mas pode ocorrer) |
Neisseria meningitidis | Meningite; meningococcemia; púrpura fulminans/choque séptico |
Neisseria gonorrhoeae | Gonorreia (uretrite/cervicite); DIP; artrite séptica disseminada; conjuntivite neonatal |
Pseudomonas aeruginosa | Pneumonia associada à ventilação; bacteremia; infecção em queimados; otite externa (incl. maligna); foliculite de piscina; infecção em fibrose cística |
Acinetobacter baumannii | Pneumonia nosocomial/VAP; bacteremia; infecções de ferida (alta multirresistência) |
Stenotrophomonas maltophilia | Pneumonia e bacteremia em pacientes hospitalizados/imunossuprimidos (oportunista; frequentemente multirresistente) |
Burkholderia cepacia (complex) | Pneumonia/colonização em fibrose cística; bacteremia em imunossuprimidos |
Haemophilus influenzae | Otite média; sinusite; exacerbação de DPOC; pneumonia; meningite/epiglotite (mais associadas a cepas encapsuladas, quando não vacinado) |
Legionella pneumophila | Legionelose (pneumonia atípica), possível diarreia/hiponatremia; surtos por água/aerossóis |

